May he rise, un ouïr primitif
Evelise Mendes - 14 juillet 2018

May he rise and smell the fragrance, chorégraphie Ali Chahrour,
théâtre Benoît-XII, Avignon In 2018


Dans May he rise and smell the fragance, le chorégraphe libanais Ali Chahrour revisite des rituels de deuil et de cérémonie funéraire de la tradition chiite. Il y a donc tous les éléments pour favoriser une ambiance assez rituelle : la musique, la prière, le chant, la danse, la répétition des gestes, l’obscurité du plateau, et ainsi de suite.


Si lors des premières vingt minutes on a l’impression d’être tombé sur un spectacle destiné à faire plaisir au public-consommateur du Festival (public qui souvent aime l’interculturalité, l’exotique)... au fur et à mesure de la mise en scène on voit quelque chose d’étrange s’y dérouler... Bien qu’il s’agisse d’une proposition très visuelle (au sens d’être composé d’une sorte de tableaux successifs), May he rise provoque notre perception d’ouïr. Au-delà de la communication lorsqu’on s’adresse à quelqu’un... au-delà de la mise en valeur de la signification des mots et du « sens sensé » (où le son tout simplement transmet quelque chose)... cet étrange type d’écriture repose sur le faire étendre quelque chose dans la salle...

Peut-être que l’oreille ici renvoie à la sphère du primitif. C’est ce que P. Schaeffer nomme « oreille sensorielle » : « Je pense que c’est bien artificiel, notre écoute, bien sottement moderne, et que nous écoutons la musique en intellectuels alors que nous devrions écouter toujours la musique comme des hommes primitifs… Car nous sommes toujours des hommes primitifs […] ». [1]

Or, la source sonore des chants-cris-pleurs devient elle-même une dramaturgie. Une dramaturgie qui met en friction nos paramètres de ce qui serait une bonne scène théâtrale, de ce qui serait le bon rythme, de ce qui serait le bon texte, etc.

May he rise est en définitive tout un univers d’expérimentation artistique où le corps bouge autrement, où le son danse, où l’esprit voyage, où le chant-lamentation arrive à tous...

(la suite de la critique en portugais)

Ali Chahrour é um coreógrafo libanês nascido em 1989 formado em artes cênicas pela Universidade Libanesa. Ele já esteve presente no Festival de Avignon em duas ocasiões anteriores apresentando Fatmeh e Leïla.
Em cena, vemos uma mulher e três homens. Ela (Hala Omran) canta, ela grita, ela explora sua capacidade vocal de inúmeras maneiras (sobretudo em relação a sua capacidade de alongar as frases de rezas mulçulmanas, as quais se transformam consequentemente em cantos).

Vemos também três homens. Dois deles (Ali Hout e Abed Kobeissy) encarregados principalmente dos instrumentos de corda e de percussão típicos do Líbano, enquanto o terceiro (o coreógrafo Ali) algumas vezes dança, outras vezes toca.

De uma maneira geral, todos os quatros artistas se baseiam na exaustão gerada pela repetição dos gestos e das sonoridades, gerando desta forma um ambiente que se dirige ao ritual.

Assim, por exemplo, há um momento em que os dois artistas músicos tocam seus instrumentos, o outro faz movimentos com o corpo que remetem à dança do ventre, enquanto a mulher canta. Os quatros gradativamente aumentam o ritmo desse momento, permanecendo assim durante bons minutos até sentirem dores nas mãos, no corpo... Eles insistem nisso, o que os faz questionar os limites do corpo, ao mesmo tempo que interrogam o que seria uma transe cênica (já que em nenhum momento eles tentam imitar ou representar um ritual de transe).

Talvez não seja apropriado em denominar May he rise categoricamente de "cena ritual" : o mais adequadro seria de percebê-lo como uma busca do que seria a essência do elemento ritual na cena. O que, nesse caso, passa pelo dispositivo da repetição ; da repetição, o estado de transe é sugerido.
Não se trata de gostar ou de não gostar do trabalho encabeçado por Ali Chahrour. Sua proposta é de nos interrogar, de interrogar nossa capacidade de escuta do outro. Uma escuta que ao invés de passar pelo entendimento dos signficados das palavras ditas, passa pelo som em estado puro. O som de lamento tão fortemente exprimido pela atriz francesa-siria Hala Omran, esse choro de lamento transformado em música, chega de uma maneira ou de outra a todos(as) nós.

Num Festival que tem deixado cada vez menos espaço para trabalhos experimentais que se arriscam ao desconhecido, Men he rise se torna um sopro de vivacidade. Mesmo que se trate de um sopro de melancolia, de um sopro sofrido.


[1Pierre Schaeffer, « De l’expérience musicale à l’expérience humaine », in La revue musicale, n° 274-275, 1971, p. 57.

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